Ritual, corporalidade e performance: discussões a partir de Cavalcanti e Giumbelli
Na reunião do grupo de estudos Calundu, realizada em 17 de setembro de 2026 e
conduzida por Guilherme Dantas, foi discutido o editorial “Ritual, corporalidade e
performance”, de Maria Laura Cavalcanti e Emerson Giumbelli,
publicado na revista Religião e Sociedade, em 2009. O texto apresenta diferentes
caminhos pelos quais a antropologia tem pensado os rituais, destacando especialmente
as relações entre linguagem, pensamento, ação, experiência, comunicação, performance
e corporalidade.
A discussão partiu da compreensão do ritual não como uma prática fixa ou
simplesmente repetitiva, mas como uma forma de comunicação que envolve
continuidade e interpretação. Nesse sentido, chamou atenção a ideia de que os rituais
podem ser compreendidos como uma espécie de linguagem, na qual gestos,
movimentos, objetos e diferentes formas de organização no espaço também produzem e
comunicam sentidos – o que é potente para o estudo da afrorreligiosidade. O editorial
destaca justamente a ampliação dos estudos sobre ritual a partir das noções de
performance e corporalidade, buscando superar separações rígidas entre representação e
prática, mente e corpo, experiência e simbolização.
Outro ponto discutido foi a dimensão corporal da experiência ritual. A partir das
reflexões de Marcel Mauss apresentadas no texto, o corpo aparece não apenas como
suporte da ação, mas como parte constitutiva das experiências sociais e religiosas. As
chamadas “técnicas do corpo” são apresentadas como articulações entre dimensões
fisiológicas, psicológicas e sociais, permitindo pensar a pessoa de maneira integrada. A
discussão também levou à reflexão sobre como determinadas performances rituais
podem produzir disposições corporais e formas específicas de atenção, percepção e
experiência.
A partir disso, foram levantadas questões sobre a dimensão psicológica e
comportamental dos rituais e sobre como performances podem participar da produção
de comportamentos coletivos. O texto de Cavalcanti e Giumbelli apresenta diferentes
pesquisas nas quais gestos, voz, dança, meditação, oração e outras práticas corporais são
analisados como elementos fundamentais da experiência ritual, mostrando que a
comunicação não se restringe à linguagem verbal.
Por fim, a discussão retomou uma questão importante para a própria antropologia: os
limites de uma abordagem que observa os rituais apenas como objetos pertencentes ao
“outro”. Pensar a dimensão ritual da vida social também permite questionar os próprios
pressupostos da antropologia e as formas pelas quais comportamentos, corpos e práticas
são classificados como rituais. Nesse sentido, o editorial apresenta a performance ritual
não apenas como um tema específico, mas como um foco analítico capaz de produzir
novas leituras sobre diferentes materiais e experiências sociais.
