Calundu

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O Calundu – Grupo de Estudos sobre Religiões Afro-Brasileiras (Grupo Calundu) é vinculado ao Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, em sua linha de estudos Feminismo, Relações de Gênero e de Raça. Trata-se de um grupo interdisciplinar, que reúne estudantes de graduação e pós-graduação da UnB, bem como profissionais sem vínculo com a comunidade acadêmica, interessados em leituras e debates sobre a área temática do grupo.

O grupo possui, ademais, postura militante contra todas as formas de racismo (intolerância religiosa, inclusive), misoginia, homofobia e todas as outras formas de violência e violação de Direitos Humanos.

São membros do grupo (em ordem alfabética):

  • Adélia Mathias
  • Andréa Carvalho Guimarães
  • Ariadne Moreira Basílio de Oliveira
  • Aisha – Angéle Leandro Diéne
  • Beatriz Martins Moura
  • Clara Jane Costa Adad
  • Danielle de Cássia Afonso Ramos
  • Francisco Phelipe Cunha Paz
  • Gerlaine Martini
  • Guilherme Dantas Nogueira
  • Hans Carrillo Guach
  • Iyaromi Feitosa Ahualli
  • Luís Augusto Ferreira Saraiva
  • Nathália Vince Esgalha Fernandes
  • Sueli da Cruz Garcia

 

Mas e o Calundu, o que é?

Existe uma expressão coloquial muito conhecida usada para interpelar alguém que parece emburrado ou visivelmente chateado:

“Que é isso? Tá de calundu?”

Menos conhecida é a origem e trajetória do significado dessa palavra que chegou até nós com um gosto de lembrança e memória, próprio das expressões típicas.

“Calundu” foi outrora um nome muito usado, não para descrever as caretas de quem está mal humorado, mas para falar de um estado de espírito alterado, ou melhor dizendo, de um “aspecto carrancudo do rosto e comportamento dos possuídos em transe pela divindade[1], segundo Yeda Pessoa de Castro, referência em línguas africanas e estudos afro-brasileiros em línguas e culturas.

Se nos aproximarmos de suas raízes, a palavra “Calundu” está inserida no vocabulário das antigas línguas centro-africanas quimbundo e quicongo, relacionada à herança dos espíritos que pertencem a uma remota ancestralidade.

Ao chegar em terras brasileiras com os primeiros africanos para cá transportados, a palavra tornou-se cada vez mais carregada de sentido, passando a significar, até meados do século XVIII, os cultos de raiz africana que se encontraram com as práticas ameríndias e que foram emergindo em celebrações com canto e dança coletivos.

Já Gregório de Matos falava deles em fins do século XVI:

“Que de quilombos que tenho

Com mestres superlativos

Nos quais se ensinam de noite

Os calundus e feitiços”.

Esses cultos chamados de Calundus tinham um caráter e vocação públicos e variavam em sua forma de expressão. Geralmente aconteciam em alguma residência, nem sempre destinada unicamente a acolher essas práticas rituais e sob a liderança de pessoas – os “mestres superlativos” na visão de Gregório de Matos – que ganhavam nome ao interagir “terapeuticamente” com a comunidade.

Quando formas de religiosidade africana chegaram vindas de outras partes deste continente, trazendo as tradições hoje conhecidas como “jeje”, encontraram os calundus em pleno funcionamento. Estes as receberam e as apoiaram, com seu saber ritual acumulado bem adaptado ao meio, como bem define Renato da Silveira, que dedica parte de sua obra a explorar este assunto.

Por ser a protoforma das variações atuais das religiosidades brasileiras, que estendem suas raízes desde nosso território com seus povos indígenas até a África, o Calundu expressa a ideia de solidariedade entre diversas práticas rituais e devocionais que o nosso grupo pretende abordar.

[1] Falares Africanos na Bahia – um vocabulário afro-brasileiro.