A última reunião do grupo de estudos Calundu, realizada em 03 de setembro de 2026,
teve como eixo a discussão da entrevista realizada por Carolina Parreiras com Michael
Taussig, publicada na Revista de Antropologia em 2020. O texto aborda as relações
entre prática antropológica, teoria, escrita e experimentação etnográfica, mobilizando
questões como estética, poder, violência, mímesis, alteridade e os limites da produção
do conhecimento antropológico.
A discussão foi conduzida por Adélia Mathias, e inicialmente se concentrou na relação
estabelecida por Taussig entre estética e poder. Ao afirmar que as formas pelas quais
falamos sobre sociedades e grupos são atravessadas por forças subliminares e ao propor
a ideia de “arte versus arte”, o autor compreende a estética como uma dimensão política
capaz de sustentar ou confrontar hierarquias, autoridades e relações de domínio. A partir
dessa formulação, Adélia problematizou o uso da própria categoria “estética”,
considerando que ela pode assumir um caráter conservador justamente pela
ambiguidade que produz. Para ela, evocar o conceito de estética pode significar, em
determinadas situações, retirar algumas pessoas e experiências do lugar de produção e
reconhecimento do saber.
Essa discussão levou à problematização da própria posição da antropologia diante de
seus objetos de estudo. Adélia destacou que a entrevista aproxima o antropólogo
daquilo que é investigado, questionando a ideia de uma distância absoluta entre
pesquisador e objeto. O texto, por sua vez, apresenta a antropologia como situada em
um espaço entre o íntimo e o filosófico, articulando acontecimentos particulares às
questões da teoria social. Nesse sentido, também foi discutida a oposição entre mente e
corpo e a hierarquização de saberes que privilegia o conhecimento intelectual em
detrimento dos conhecimentos corporais. A partir disso, afirmou-se que o corpo também
possui formas próprias de saber, constituídas por habilidades e experiências que não
necessariamente passam pela linguagem acadêmica.
Outro ponto debatido foi a relação entre jornalismo e antropologia, especialmente pela
importância da comunicação entre esses campos. A conversa destacou que ambos
podem se voltar para acontecimentos íntimos e cotidianos, ainda que a antropologia
procure articulá-los a questões teóricas e filosóficas mais amplas. Essa aproximação
também permitiu questionar quais formas de conhecimento são legitimadas pela
academia e quais permanecem fora de seus limites.
Guilherme trouxe para o debate a diferença entre o lugar do acadêmico e o de uma mãe
de santo, problematizando a forma como determinados conhecimentos são reconhecidos
ou deslegitimados conforme o lugar social de quem os produz. A discussão avançou
para a própria ideia de humanidade assumida pela modernidade, apontada por
Guilherme como uma concepção construída a partir de referências europeias e, portanto,
atravessada por um caráter elitista. A palavra “civilização” foi discutida como uma
construção histórica vinculada a uma percepção europeia que passou a organizar e
hierarquizar diferentes formas de existência.
A partir dessa questão, Adélia discordou da ideia de compreender a violência da
modernidade apenas como um fenômeno localizado em determinado período. Para ela,a violência apresenta uma dimensão contínua, com elementos que atravessam diferentes
momentos históricos. Nesse ponto, foram mobilizadas as discussões de Rita Segato
sobre o patriarcado, pensando a violência como parte de um sistema complexo que se
constitui e se reproduz historicamente. Guilherme, por sua vez, ressaltou que essa
relação não poderia ser tomada como uma certeza, tratando-se de uma hipótese
interpretativa, uma vez que não se sabe exatamente por que esses processos assumem
determinadas formas.
Adélia retomou ainda Vigiar e Punir, de Michel Foucault, para pensar os mecanismos
de expurgo do outro e as formas pelas quais determinados sujeitos são afastados ou
enquadrados por estruturas de poder. A discussão foi relacionada à ideia de mimesis
presente no texto de Taussig, sobretudo à possibilidade de a linguagem não apenas
representar a violência, mas também reproduzir ou reencenar seus efeitos. Taussig
afirma que a violência estimula a função mimética da linguagem, fazendo com que as
palavras e frases possam se aproximar daquilo que descrevem.
Nesse contexto, Adélia chamou atenção para a possibilidade de a violência ser
apresentada de maneira banalizada. O discurso literário, embora muitas vezes
subestimado, poderia justamente produzir outras formas de aproximação e
estranhamento diante do horror. A discussão mobilizou a noção de “banalidade do mal”
e Bourdieu, pensando na capacidade dos discursos de naturalizar determinadas formas
de violência e fazer com que o horror passe a ser percebido como algo cotidiano ou
normalizado.
A diferença entre fala e escrita também apareceu como questão importante. Adélia
observou que, na fala, não há necessariamente tempo para modificar aquilo que foi dito,
enquanto a escrita permite retornar ao texto, reorganizá-lo e produzir outras
possibilidades de sentido. Essa reflexão dialogou com a própria preocupação de Taussig
com a escrita etnográfica e com a necessidade de experimentação. No texto, o autor
afirma que não considera possível simplesmente ensinar alguém a escrever ou a fazer
trabalho de campo, mas defende a importância de discutir essas práticas e pensar a
escrita enquanto prática em si.
Adélia também fez questão de diferenciar sua crítica às formulações presentes na
entrevista de qualquer julgamento sobre o caráter pessoal de Taussig. A questão
colocada não seria avaliar o antropólogo enquanto indivíduo, mas observar criticamente
as categorias utilizadas por ele e os lugares de poder implicados na produção do
conhecimento. Nesse sentido, trouxe como referência o filme Que Horas Ela Volta?,
pensando uma crítica produzida a partir da própria esquerda, mas que também
reconhece seus limites e contradições.
Guilherme, por sua vez, ressaltou que a própria concepção de humanidade assumida
pela modernidade já carrega uma dimensão elitista, enquanto Gerlaine discordou da
caracterização de Taussig simplesmente como elitista. Para ela, era necessário observar
também a performance do autor no espaço acadêmico e sua maneira de dissolver
fronteiras entre diferentes campos de conhecimento. O caráter enigmático e
experimental de sua escrita poderia ser entendido não apenas como uma forma de
elitização, mas como uma estratégia de deslocamento dos limites disciplinares.
Por fim, Gerlaine caracterizou, após uma fala de Adélia sobre sua vivência enquanto
mulher preta, o lugar ocupado por Adélia na discussão como um olhar de alteridade
desvendada, isto é, uma perspectiva que procura tornar visíveis as relações de poder e as
hierarquias que permanecem ocultas quando determinadas categorias são tratadas como
universais. A partir da estética, do corpo, da escrita, da violência e da alteridade, o debate permitiu pensar criticamente a autoridade antropológica e os próprios
mecanismos pelos quais a universidade pode tanto reproduzir quanto questionar
hierarquias na produção do conhecimento.
