Ochún en la regla de ocha-ifá: comprensiones sobre un fundamento para la reexistencia racial

Na última reunião do Projeto Diálogos Comunitários Calunduzeiros, ocorrida no dia 21 de maio de 2026, foi debatido o artigo “Ochún en la regla de ocha-ifá: comprensiones sobre un fundamento para la reexistencia racial”, de Hans Carrillo Guach. O texto parte de experiências etnográficas e autobiográficas do autor para pensar Oxum/Ochún como fundamento cosmológico, epistemológico e político de resistência antirracista nas religiões afro-diaspóricas. A discussão abordou especialmente as relações entre ancestralidade, cura, subjetividade negra, memória e reexistência racial.

Inicialmente, debateu-se a compreensão da regla de ocha-ifá enquanto tradição afro-diaspórica com elementos próximos ao candomblé brasileiro, embora marcada por especificidades históricas e cosmológicas próprias da diáspora cubana. Ressaltou-se que o texto busca deslocar as religiões de matriz africana do campo colonial que as associa ao folclore, à superstição ou à magia, afirmando-as como espaços legítimos de produção de conhecimento e elaboração ontológica do mundo.  

A discussão se concentrou na maneira como Hans Carrillo articula su própria trajetória enquanto homem negro atravessado por experiências de racismo e desvalorização fenotípica. Foi debatido como o autor relaciona inseguranças ligadas ao corpo, à identidade racial e ao sentimento de não pertencimento com processos espirituais vivenciados em sua iniciação religiosa. Nesse sentido, ganhou destaque a passagem em que, durante consulta oracular, recebe a mensagem de que precisava “abraçar mais a si mesmo antes de abraçar os outros”. A partir disso, discutiu-se que o autocuidado e o autoamor aparecem no texto não como práticas individualistas, mas como condição fundamental para a construção de vínculos coletivos, comunitários e ancestrais.  

Também foram debatidos os processos divinatórios presentes na regla de ocha-ifá, especialmente o uso do opelé e a leitura do odú. A reunião ressaltou que a adivinhação não aparece no texto como jogo aleatório ou superstição, mas como mecanismo cosmológico de revelação e reorganização existencial. O odú revelado ao autor indicava a necessidade de firmeza, abertura de caminhos e incorporação dos fundamentos de Oxum em sua vida cotidiana. Nesse processo, destacou-se a importância da ancestralidade e da memória espiritual enquanto dimensões constitutivas da experiência negra diaspórica.

Outro eixo central do debate foi o significado do rio enquanto principal símbolo de Oxum. No texto, o crescimento das águas aparece associado à possibilidade de transformação, movimento e continuidade da vida diante de contextos marcados pela violência racial. A partir disso, discutiu-se que o “fluir” proposto por Hans Carrillo não significa adaptação passiva ao racismo, mas capacidade de continuar existindo sem permitir que a violência produza estagnação subjetiva, emocional e espiritual. Nesse sentido, o rio deixa de ser apenas elemento natural e passa a simbolizar caminhos de sobrevivência coletiva, fortalecimento interno e reconstrução ontológica.  

As discussões também abordaram a noção de cura presente no artigo. Foi ressaltado que, na regla de ocha-ifá, cura não se limita a uma dimensão física ou individual, envolvendo aspectos subjetivos, ancestrais, espirituais e coletivos. A partir disso, refletiu-se sobre a relação entre cura e resistência, entendendo a resistência antirracista como possibilidade de reconstrução da dignidade, da autoestima e da continuidade da vida negra em contextos marcados pelo colonialismo e pela violência racial.

Outro aspecto debatido foi a relação entre introspecção e movimento. O texto argumenta que a introspecção sugerida por Oxum não conduz ao isolamento, mas ao fortalecimento da capacidade de existir e fluir no mundo. Assim, o autoabraço, o reconhecimento do próprio corpo e o resgate da memória ancestral aparecem como fundamentos para que sujeitos racializados consigam afirmar suas identidades e construir outras possibilidades de existência.

Por fim, concluiu-se que o artigo de Hans Carrillo contribui para pensar as religiões afro-diaspóricas como espaços epistemológicos fundamentais para a elaboração de práticas antirracistas, processos de cura e afirmação ontológica da vida negra. A reunião reforçou a importância de compreender Oxum não apenas como entidade religiosa, mas como fundamento cosmológico capaz de orientar modos de existir, resistir e reexistir diante das múltiplas formas de violência produzidas pelo racismo contemporâneo.

Escrito por Catarina Duarte, sob a supervisão de Hans Carillo

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