Na última reunião do Calundu ocorrida no dia 07 de maio, conduzida por Guilherme Dantas Nogueira, foi debatido o artigo “Curupira e Caipora: o papel dos seres elementais como guardiões da natureza”, de Eraldo Medeiros Costa Neto, Dídac Santos-Fita e Leonardo Matheus Pereira Aguiar. A discussão partiu da compreensão de que, para diversos povos indígenas e comunidades tradicionais, natureza e humanidade não se encontram separadas, mas constituem dimensões profundamente imbricadas da existência. Diferentemente da racionalidade moderna ocidental, que dissocia sujeito e meio ambiente, corpo e território, os modos de vida tradicionais compreendem rios, matas, montanhas e seres encantados enquanto entidades vivas, dotadas de agência, ancestralidade e espiritualidade.
Ao longo do debate, Guilherme Dantas destacou que a estrutura colonial brasileira e latino-americana foi construída simultaneamente sobre a exploração da terra, dos corpos e das subjetividades. Classe, raça, gênero e exploração da natureza surgem, portanto, como dimensões inseparáveis do processo colonial. Nesse sentido, refletiu-se sobre como povos e comunidades tradicionais foram historicamente subalternizados não apenas por serem não-brancos, mas também porque seus sistemas de conhecimento foram classificados pelo Ocidente como “folclóricos”, termo criticado pelo grupo por negar estatuto ontológico e epistemológico aos saberes desses povos.
Observou-se, também, que comunidades tradicionais não precisam ser necessariamente não brancas, em que pese o fato de que para o debate latino-americanista são as negras e indígenas as mais relevantes, visto o contexto histórico de colonização e colonialidade. De qualquer forma, foi trazido o exemplo de comunidades tradicionais pomeranas, que são germano-descendentes no Brasil, e formadas por pessoas brancas.
A partir das contribuições de Rita Segato, discutiu-se também como a violação dos corpos femininos se relaciona diretamente à violação do território. Em diversas dinâmicas de violência colonial e contemporânea, como milícias, guerras e facções, o corpo da mulher aparece como extensão simbólica do território e da comunidade.
No debate, Célia articulou o texto com reflexões de autores como Ailton Krenak, Nego Bispo, Malcolm Ferdinand, Kimani SKNehusi. Também ela reforçou a potência do debate entre corpos e territórios e como esses pensadores negros aportam a esse diálogo. Guilherme citou, também, Marisol de la Cadena, reforçando a noção trazida por Célia sobre as diferenças de semântica e poderquando povos tradicionais e modernos se reúnem para debater território e os vários seres outros-que-humanos que os habitam – para a branquitude dominante entendidos como “recursos naturais”. A partir de Aílton Krenak, reforçou-se a noção da terra enquanto ser vivo e sujeito de existência, e não como mero recurso econômico. A discussão retomou o desastre de Mariana e os impactos no povo Krenak, para quem a morte do Rio Doce representou também a morte de seu povo, de sua espiritualidade e de suas possibilidades de reprodução cosmológica, configurando não apenas um genocídio material, mas também epistemológico. Para o povo Krenak o Rio Doce é Watú, seu ancestral cosmogônico e genealógico. Sem Watú, não há povo Krenak.
O grupo debateu ainda a ideia de “ecologia espiritual”, conceito trabalhado por Malcolm Ferdinand,também presente no artigo discutido. Nesse entendimento, espiritualidade e ecologia não aparecem como campos separados, mas como formas integradas de relação com o mundo. Os seres míticos, como Curupira e Caipora, foram pensados não enquanto personagens “folclóricos”, mas como forças cosmológicas que trabalham para a regulação ecológica. Nesse sentido, discutiu-se como esses seres atuam como guardiões da floresta, regulando práticas de caça, circulação e uso do território, estabelecendo limites éticos entre humanos e natureza.
Durante a reunião, houve uma crítica importante ao uso dos termos “folclore”, “duende” e “elemental”, compreendidos como categorias insuficientes ou reducionistas diante da complexidade dessas cosmologias. Ainda que o próprio artigo utilize alguns desses termos, o grupo ressaltou a necessidade de valorizar as epistemologias afro-indígenas a partir de suas próprias categorias de existência. Assim, Curupira e Caipora foram debatidos enquanto expressões de modos relacionais de viver, nos quais floresta, ancestralidade e espiritualidade constituem uma mesma dimensão.
Por fim, a reunião evidenciou como as cosmologias afro-indígenas propõem outras formas de compreender humanidade, território e natureza, questionando as separações produzidas pela modernidade ocidental. As discussões apontaram para a importância de reconhecer esses saberes não como elementos “folclóricos”, mas como formas complexas de existência, organização e relação com o mundo.
Escrito por Catarina Duarte, sob a supervisão de Guilherme Dantas Nogueira
