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Reuniões públicas calunduzeiras – segundo semestre de 2020

Já está disponível o calendário de reuniões públicas do segundo semestre de 2020. Para acessar, clique aqui.

Este semestre segue a mesma linha do semestre passado e será dedicado a debates de textos antigos sobre afrorreligiosidade brasileira, discussão de textos atuais que dialogam com os antigos e discussões de textos publicados na Revista Calundu. Não obstante, será mais curto em reuniões, em função das dificuldades impostas pela presente pandemia do COVID-19. Também por isso, todas as reuniões serão realizadas em formato de videoconferência, com links de acesso divulgados pelo grupo, por WhatsApp, momentos antes das reuniões (em caso de interesse, mandar e-mail para calunduzeiros@gmail.com).

Nota contra o racismo e a violência contra o processo iniciático das religiões afro-brasileiras

André Gomes Ogunkeye[1]

Calundu – Grupo de Estudos sobre Religiões Afro-Brasileiras

 

Alfredo Bosi, em seu já clássico estudo sobre o pensamento colonial presente em A dialética da colonização (2001), analisa o processo de dominação do território brasileiro pelos portugueses a partir de duas perspectivas aqui bastante simplificadas:  a) a colônia é, para o colonizador, um espaço de exploração econômica e, portanto, de enriquecimento; b) a colônia é um espaço de transposição de valores simbólicos/ancestrais/culturais que devem ser adaptados ao novo ambiente. É a segunda perspectiva – cultural/simbólica – que nos interessa e a ela voltaremos em nosso texto-denúncia. Antes é preciso situar a denúncia.

Como é do conhecimento da grande maioria das pessoas, as religiões de matriz africana, especialmente aquelas que representam uma atualização do culto às divindades africanas (nkinsi, orixá ou vodun) em solo brasileiro, têm como marca o processo iniciático e, em algumas delas, esse processo é caracterizado pela raspagem de cabelo. Ao aceitar passar por este processo, a/o noviça/o vai apresentar marcas essenciais da religiosidade, tais como o cabelo raspado, os fios de conta, o uso ou não-uso de determinadas cores. Todo esse processo, realizado nos terreiros das religiões afro-brasileiras, levam, no caso do Candomblé, às cerimônias públicas de saída da Muzenza (nação Angola), Huyin (nação Jêje) ou do Orunkò Yawó (nação Keto), e que consistem na apresentação da/o nova/o componente da família de santo ao público. É preciso destacar que o processo iniciático pode ser acessado por qualquer pessoa que deseje fazer parte daquela comunidade – desde que aceita pela família de santo – e, desse modo, as crianças, desde que assessoradas por suas/seus responsáveis, podem ser iniciadas nessa religião.

Toda essa introdução é para relatar mais uma violência contra um terreiro: em 23 de julho de 2020, em Araçatuba, cidade situada no Noroeste do Estado de São Paulo, uma menina de doze anos – o seu nome por razões óbvias vem sendo preservado – foi retirada pela polícia do terreiro em que estava recolhida para seu processo iniciático, sob a acusação de maus tratos e abuso sexual, e levada junto com sua mãe para depor na Delegacia das Mulheres daquela cidade. Na ocasião, depois do depoimento de ambas e dos exames de corpo de delito realizados na menina, averiguou-se, segundo a imprensa, que ela não tinha quaisquer marcas de violência ou abuso e permanecia tranquila, afirmando que estava recolhida com seu consentimento e com a anuência de seus pais.

Em 28 de julho, um conselheiro tutelar voltou a apresentar denúncia contra mãe da menina, Kate Belintane, afirmando que a raspagem do cabelo podia ser caracterizada como mau-trato. Sem ouvir os pais, o Promotor da Infância e da Juventude entrou com ação contra os responsáveis e a Juíza da Vara da Infância e da Juventude, em caráter liminar, deu a guarda da menina para avó materna que, segundo consta, é evangélica e iniciou o processo.

É interessante pensarmos na inferência realizada pelo promotor de justiça, divulgada pela imprensa televisiva na figura de uma âncora, que, embora a Constituição Federal assegure o direito de crença para todos os cidadãos, incluindo, as crianças e o Ministério Público seja guardião desse direito, “não se pode permitir que, sob o pretexto de liberdade religiosa, se pratique crimes”. Ou seja, é fácil depreender de suas palavras que as religiões de matriz africana, para ele, atuam de maneira criminosa, abusiva e, em última análise, não deveriam ter direitos de cidadania.

Apesar dos avanços que conseguimos ao longo de séculos, bem como das recentes vitórias que o povo de santo conseguiu, a exemplo do direito de resposta à propaganda de ódio da Igreja Universal do Reino de Deus e de seu braço midiático, a TV Record, além da legitimidade jurídica do abate religioso votada no STF em 2019, há, ainda, um longo caminho para a plena cidadania daqueles que abraçam os cultos afro-brasileiros. Isso porque, a despeito de algumas decisões que se baseiam na ideia de laicidade do Estado, o aparato jurídico brasileiro é marcado por uma herança colonial, uma ferida aberta que vê na alteridade das religiões de matriz africana – em sua herança negra – a dimensão do indesejável, do primitivo, do atrasado. Daquilo que não deveria figurar no projeto eurocentrado de nação que ainda é mobilizado por inúmeros atores das mais diversas instituições deste país. Em outras palavras, para estas autoridades, um país civilizado não deveria ter estas idiossincrasias culturais/“folclóricas”.

É esse aparato civilizacional eurocentrado que nega ao povo de santo o seu direito de autodeterminação e passa, como vimos no caso em tela,  por cima da Constituição Federal e do Estatuto da Criança e do Adolescente, para tirar uma adolescente candomblecista de sua mãe, sob qualquer alegação que convenha, única e exclusivamente pelo fato de ela ser candomblecista. É esse mesmo aparato jurídico que permite que advogados, magistrados, procuradores, promotores de justiça ideologicamente alinhados com um projeto de poder racista, julguem a partir desse alinhamento casos em que figurem o interesse de pessoas ligadas às religiões de matriz africana.

No entanto, isso não é novo para nós. É triste e, às vezes desanimador, mas não é novo. Toda a estrutura jurídica brasileira é constituída para ler nossos direitos a partir de uma noção civilizatória que não contempla nossas complexidades. Se na República Velha era a polícia o nosso maior problema, hoje ele está configurado nos três poderes estatais e nas forças paraestatais das milícias, que sustentam um ideal oitocentista de nação e não nos permitem existir plenamente.

Retomamos a noção de colônia como lugar de transposição dos bens simbólicos/culturais que devem ser impostos ao outro, apagando a sua identidade. Bosi afirma que o desejo do colonizador é constituir uma espécie de espelho da metrópole e narra um acontecimento presente no Compêndio narrativo do peregrino da América (1718), de Nuno Marques Pereira (p. 60 -63). Narra o peregrino, segundo Bosi, uma visita que faz a um generoso senhor de engenho que tolerava os batuques, chamados de calundus. Depois de pernoitar na casa do senhor, o padre pergunta ao dono da casa o que era o barulho de batuques da noite anterior e, ao saber que se tratava de expressão religiosa negra, recrimina o dono da casa e condena quaisquer expressões que não sejam católicas naquela terra.

Embora, distantes 300 anos no tempo, a narrativa de Nuno Pereira e o caso de Araçatuba guardam a triste semelhança de representarem formas de demonização e marginalização das religiões de matriz africana. O que muda são apenas os aparatos discursivos: em 1718 nossos ancestrais eram demonizados em nome Deus; em 2020, é em nome da lei que um terreiro é visto como lugar de crime e de abuso.

 

REFERÊNCIAS

BOSI, A. Dialética da colonização. 4.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Mãe perde guarda da filha adolescente após denúncia de maus-tratos em ritual de candomblé. TV TEM. São José do Rio Preto. Veiculado em 08/08/20 https://globoplay.globo.com/v/8761961/programa/?fbclid=IwAR0ki6Dt899RpMkhlgXRYy6hkAR023xPkLexGDKViqzpdqmGZYiroinD9h4

 

[1] Doutor em Teoria Literária. Realiza estágio de pós-doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade, da Universidade Estadual da Paraíba (PPGLI-UEPB). Membro do Centro Cultural Oré (CECORÈ) – Egbé Ilê Ifá.

Chamada aberta – Revista Calundu, v.4, n.2

A Revista Calundu, retomando um dos seus interesses centrais e o seu compromisso com a promoção de outras “formas-pensamento”, convida a toda a comunidade afrorreligiosa e acadêmica a publicar em seu Volume 4, Número 2, “Gira Epistemológica: ciências das macumbas e outras encantarias”.

Nessa chamada a Revista Calundu espera textos sobre os complexos procedimentos epistemológicos vivenciados nos calundus do presente (encantarias, candomblés, macumbas, umbandas, etc.) e a produção de outro “entendimento-mundo”, contracolonial, antirracista, produzido no encruzo, na encruzilhada, e fora dos limites monorracionais do pensamento ocidental.

Submissões para a Revista até dia 04 de Outubro de 2020.

Para submeter, acesse a Revista, clicando aqui, pelo sistema periodicos.unb e entre em “enviar submissão”. Para acessar desde já as normas de submissão, clique aqui.

Publicação do dossiê temático: dezembro de 2020.

Para ver a notícia desta chamada, clique aqui.

Tradição Calunduzeira: um conceito diaspórico

Em 14/07/2020, o nosso integrante Guilherme Nogueira participou da live “Tradição Calunduzeira: um conceito diaspórico”. A apresentação foi organizada pelo coletivo Sociolives, do Departamento de Sociologia da UnB, com o apoio do Grupo Calundu. Durante a videoconferência, Guilherme apresentou o conceito de “tradição calunduzeira” e debateu tópicos como a centralidade das mães de santo nas religiões afro-brasileiras, calundus coloniais e hodiernos e racismo religioso. A íntegra do vídeo está disponível no YouTube e pode ser vista logo abaixo.

 

Reafirmação do posicionamento calunduzeiro face à tragédia política do presente

O Brasil vem sendo palco de acontecimentos políticos trágicos durante essa pandemia de COVID-19, que, a bem da verdade, não destoam de um triste histórico de malfazejos e maldades de seu governo federal (e de vários governos estaduais), que os protagoniza e nos causa profunda indignação. Dentre todos os acontecimentos, podemos listar, sem buscar ser exaustivas/os, brigas surreais entre o presidente e seus ministros (aqui grafados com iniciais minúsculas, pois não estão à altura de seus cargos), negação de informações testadas, validadas pela ciência e mundialmente reiteradas, protestos contra a democracia – que não é perfeita e abarca numerosas exclusões, mas é o modelo de governo que a sociedade brasileira, à custa de muita luta e sangue, conseguiu implantar –, etc.

Mais recentemente, destacam-se dentre os tristes acontecimentos políticos, particularmente no que tange à luta antirracista e contra o racismo religioso, as grosseiras ofensas proferidas pelo senhor presidente da Fundação Cultural Palmares – a quem nos recusamos nominar – contra o Movimento Negro e a religiosidade afro-brasileira, representada pela nossa querida Mãe Baiana.

Em face desse contexto, o Calundu – Grupo de Estudos sobre Religiões Afro-Brasileiras, vem a público reiterar seu posicionamento contra toda forma de violência e desrespeito a Direitos Humanos. Particularmente, contra todas as violências perpetradas pelo governo federal hodierno e pelo Estado brasileiro historicamente.

Notamos que reiterar esse posicionamento não faz deste texto apenas uma nota de repúdio. Embora também o seja, muitas dessas já foram escritas e subscrevemos a muitas. Trata-se, mais adiante, de uma tomada (reiterada) de lado concreta do grupo, coerente com a sua história, e mais uma vez tornada pública.

Os integrantes do Calundu já militam de formas variadas e ativas contra essas violências aqui pautadas e outras, seja por meio da intelectualidade ativista ou mesmo da ocupação inteligente de ruas e outros espaços públicos, quando o momento pede. Neste momento, não obstante, optamos por permanecer reclusos, seguindo as recomendações das organizações de saúde especializadas.

Essa reclusão – que envolve um oportuno e contínuo apoio a negócios contra hegemônicos e movimentos de luta virtual –, que recheamos com reuniões virtuais, com o trabalho em nossa revista acadêmica, etc., é a principal estratégia de luta contra as barbaridades do momento, assim como a manutenção de nossas rezas, junto a nossa ancestralidade sagrada, pela recuperação da humanidade e a regeneração do planeta. Lembramos, em adendo a isso, que é a Mãe Terra que nesse momento comanda a sala e se faz ser ouvida. Saudamos a grande Mãe da Criação. Que ela seja ouvida.

Proteção e saúde a todas e todos.

Cronograma de reuniões de estudo do Grupo Calundu – 1/2020

O calendário das reuniões de estudo do primeiro semestre de 2020 já está pronto e pode ser encontrado aqui.

Este semestre será dedicado a debates de textos antigos sobre afrorreligiosidade e discussões de textos publicados na Revista Calundu.

O Calundu realiza reuniões públicas quinzenais, sempre com debates de bibliografia sobre as religiões afro-brasileiras que variam entre textos revisionistas e mais atuais. Algumas temáticas que transcendem a afrorreligiosa, mas que são centrais para a sua compreensão, como gênero, raça e pensamento social, são também debatidas em alguns encontros, sempre com suporte bibliográfico.

As reuniões são públicas e sem restrição de participação. Este semestre os encontros serão realizados quinzenalmente às terças-feiras, 19h, no ICS/UnB, andar térreo. Em caso de dúvidas, pergunte pela sala na recepção do instituto.

 

Submissão aberta à Revista Calundu Volume 4, Número 1, Jan-Jun 2020 – “Mães de Santo e Mulheres de Terreiro”

O Grupo de Estudos Calundu convida a todas e todos à submissão de artigos acadêmicos e textos livres para a edição 1/2020. Dossiê temático: “Mães de Santo e Mulheres de Terreiro”

“Mães de santo e mulheres de terreiro” é um dossiê com o objetivo de trazer para o debate a força criadora das mulheres, a perspectiva matrigestora muitas vezes encontrada nas casas de axé, as experiências de mulheres plurais e forças motrizes de religiões nas quais o papel feminino desafia padrões eurocêntricos para dar lugar a uma perspectiva negada na maioria dos espaços sociais contemporâneos.

Data limite para submissões: 10/04/2020

Serão avaliadas para publicação submissões de artigos acadêmicos, resenhas e textos livres. Favor atentar-se às normas de publicação, descritas no site do Calundu (clique aqui) e/ou no portal Periódicos.unb (clique aqui).

Submissões devem ser feitas por meio do portal Periódicos.unb (clique aqui), clicando no botão “Enviar Submissão”.

Comitê Distrital de Diversidade Religiosa

Nesta segunda-feira, 11/11/2019, será realizada a cerimônia de posse do Comitê Distrital de Diversidade Religiosa (CDDR). O Calundu – Grupo de Estudos sobre Religiões Afro-Brasileiras se orgulha de fazer parte da nova composição do comitê, na figura de nossa integrante Gerlaine Martini, que tomará posse como suplente.

O Calundu parabeniza o CDDR. Que o debate democrático e embasado seja sempre sua tônica!

IV Encontros Afrorreligiosos

Pelo 4o ano seguido, na sexta-feira, dia 27/09/2019, das 14:30h às 22h, o grupo Calundu apresenta os Encontros Afrorreligiosos, na Semana Universitária da UnB. Em 2019, debateremos, pela tarde, o potente filme angolano “Xinguilamento: a força dos ancestrais”. O debate contará com a presença de afrorreligiosas/os brasileiras/os. Pela noite, apresentaremos o material didático autoral e os planos de ensino que vimos desenvolvendo para professores do Ensino Médio, para ensino de história e cultura afro-ameríndia no Brasil. Esse material ajuda a preencher uma lacuna enorme na educação secundária brasileira, que é a ausência de bibliografia sobre africanas/os, afro-brasileiras/os, indígenas, suas relações, traços culturais e suas influências na sociedade brasileira, ainda que o ensino desses temas seja obrigatório, conforme leis federais 10.639/2003 e 11.645/2008.

O material didático já está disponível para acessos e comentários em nosso site, nesse link: https://calundu.org/aulas-afro-para-ensino-medio/

Reuniões públicas semestre 2 de 2019

O calendário de reuniões públicas do segundo semestre de 2019 já está pronto e pode ser encontrado aqui.

Este semestre será dedicado a continuação dos debates de textos sobre afrorreligiosidade e discussões dos temas que serão apresentados na Conferência ALARI.

O Calundu realiza reuniões públicas quinzenais, sempre com debates de bibliografia sobre as religiões afro-brasileiras que variam entre textos revisionistas e mais atuais. Algumas temáticas que transcendem a afrorreligiosa, mas que são centrais para a sua compreensão, como gênero, raça e pensamento social, são também debatidas em alguns encontros, sempre com suporte bibliográfico.

O calendário de reuniões públicas com a indicação dos textos que serão debatidos segue abaixo:

Data Atividade Texto(s) para leitura
30/08/2019 Forças ancestrais… Pajelança e Encantaria Amazônica (Raimundo Maués e Gisela Villacorta).
13/09/2019 Angoleiro e performático Joãozinho da Goméia: o lúdico e o sagrado na exaltação ao candomblé. Caminhos da alma Caminhos da alma Caminhos da alma: memória afro-brasileira. (Raul Lody; Vagner Gonçalves da Silva).
27/09/2019 Semana Universitária  ____________________
11/10/2019 Macumbeiros cientistas! Fogo no Mato: A ciência encantada das macumbas (Luiz Antonio Simas e Luiz Rufino).
25/10/2019 Discussões dos temas Discussões tradição afro e casos de racismo
08/11/2019 Discussões dos temas Discussões de racismo religioso e colonialidade
22/11/2019 Discussão texto clássico. Texto a ser escolhido.

Os encontros serão realizados sempre às sextas-feiras, 19h, no ICS/UnB, andar térreo. Em caso de dúvidas, pergunte pela sala na recepção do instituto.